A história ainda pouco conhecida sobre criar gado sem desmatar florestas na Amazônia conta sobre povos que constroem autonomia alimentando suas comunidades, conservando a floresta e maximizando o potencial do ecossistema nativo, resistindo com base na cooperação.
O que é verdade e o que é mito sobre pecuária indígena?
“Gado não faz parte da cultura indígena.”
Mito: Culturas se transformam. O gado hoje também é símbolo de autonomia, alimento e retomada de terras para alguns povos, como os do lavrado de Roraima.
“Pecuária indígena pode crescer sem desmatar.”
Verdade: A pecuária indígena sustentável em Roraima tem crescido sem desmatar a Amazônia. Povos como Macuxi, Wapichana e outros, utilizam o lavrado para criação de gado de forma extensiva, sem converter áreas de florestas em paisagens.
“Produção indígena de gado não é eficiente.”
Mito: No lavrado de Roraima, 52 animais em 1980 se transformaram em aproximadamente 80 mil em 2023. Isso é eficiência com sustentabilidade.
“O movimento ‘Ou Vai ou Racha’ foi só sobre proibir bebida alcoólica.”
Mito: Foi uma virada política em 1977. Esse movimento rompeu com relações de submissão e abriu caminhos para autonomia, cooperativismo e para a pecuária comunitária que hoje resiste no Lavrado.
“A pecuária indígena alimenta comunidades inteiras e não só o mercado externo.”
Verdade: Rebanhos são multiplicados e redistribuídos entre comunidades, com controle local e coletivo, e isso também fala sobre autonomia indígena de gerir a produção.
“A pecuária indígena pode competir com outras formas de produção.”
Verdade: Tendo como base as melhores práticas utilizadas para a pecuária extensiva em gramíneas nativas, e com cuidado e respeito pela natureza, a pecuária indígena sustentável tem potencial de se consolidar como motor de equilíbrio social, territorial e ambiental das Terras Indígenas que têm a pecuária como parte da cultura e força de sustentabilidade e segurança alimentar no território.
A pecuária indígena sustentável em Roraima é exemplo de sustentabilidade, de gestão coletiva e de retomada de territórios. E sim: é possível produzir com floresta em pé e Lavrado valorizado.
Texto: Alicce Rodrigues; Fotos: Júlia Vial e Geovani Tonolli