Pecuária indígena sustentável tem potencial de competir com outras alternativas de produção, mas trabalho ainda é invisibilizado no Brasil.
Cercada de amores e ódios, a pecuária passou a ser uma das atividades econômicas de povos indígenas no estado de Roraima e foi fator fundamental de resistência nos processos de demarcação das terras, do que viria a ser a Terra Indígena Raposa Serra do Sol.
Dentro do contexto da colonização amazônica e de disputas territoriais, indígenas e colonos foram definindo seus interesses e demarcando seus espaços, suas práticas de uso do solo e dos rios. É nesse contexto da colonização e da presença de trabalhadores originários em fazendas que se desenvolveu a pecuária indígena.
Neste processo, muitos colonos se apossaram de terras ancestrais e estabeleceram fazendas de gado. A partir das décadas de 1920 e 1930, com a descoberta de ouro e pedras preciosas, as duas ocupações principais de Roraima eram o garimpo e a agropecuária.
O trabalho indígena era marcado por relações forçadas de dependência, violência e submissão, com o controle dos meios de produção e da bebida alcoólica. Em abril de 1977, um grupo de tuxauas (caciques e lideranças indígenas) tomou uma decisão histórica no movimento indígena do estado de Roraima, o chamado “Ou Vai ou Racha”, com a premissa de “Não à bebida alcoólica e Sim à Comunidade”.
O gado bovino passou a integrar os costumes e a estrutura social de povos indígenas que vivem na região do lavrado em Roraima. Após o “Ou Vai ou Racha”, a formação do Conselho Indígena de Roraima (CIR) e a chegada do projeto “Uma Vaca para o Índio” (UVPI), também chamado de MCruz, os tuxauas e suas comunidades passaram a receber rebanhos, multiplicá-los e redistribuí-los para outras comunidades dispersas no território.
Sem desmatamento, o trabalho pecuarista indígena na região partiu de 52 animais e atingiu o número de aproximadamente 58 mil animais nas TIs Raposa Serra do Sol e São Marcos em 2023, e cerca de 80 mil cabeças no estado de Roraima em 2023.
A pecuária indígena hoje e nas últimas cinco décadas além de garantir a segurança alimentar, foi fator fundamental na retomada e a posse da terra por parte dos indígenas do Lavrado no antigo Território Federal, atualmente no Estado de Roraima. É um trabalho com potencial para disputar com outras alternativas menos sustentáveis, mas ainda sofre com a invisibilidade.
“(…)não nos cabe julgar se a pecuária desenvolvida pelos indígenas é ou não parte dos costumes e da sua cultura, o fato é que a cultura é mutável e os números da população bovina sob controle dos indígenas na TI Raposa Serra do Sol e São Marcos, bem como em outras comunidades do Lavrado (ao redor de 80 mil animais), cresceu significativamente, e também foi utilizado sistematicamente para consumo, comércio e ferramenta essencial na retomada dos territórios e da riqueza de Roraima. Fonte: Artigo “The Holly Cow: An Untold Story of indigenous shepparding at Raposa Serra do Sol Indigenous Land in Brazil”
Texto: Alicce Rodrigues; Fotos: Geovani Tonolli e Conselho Indígena de Roraima